Apinayé
Sociedade Apinayé – Contatos
Os primeiros contatos dos Apinayé com a sociedade majoritária aconteceram no final do século XVIII, quando o rio Tocantins começou a ser navegado em todo seu percurso pelos bandeirantes paulistas que capturavam escravos nesse rio.
Segundo Nimuendaju (1983.01), os Apinayé foram encontrados pela sociedade dita "civilizada", primeiro pelos jesuítas e mais tarde pelos bandeirantes e pelos escravos fugitivos das minas de Goiás, os quais se estabeleceram nas margens do Araguaia e Tocantins.
Havia grande interesse em escravizar os indígenas para auxiliarem os viajantes na passagem das cachoeiras do rio Tocantins, uma vez que só eles conheciam o rio e constituíam a única mão-de-obra da região. O final do século XVIII, para Nimuendaju (idem. 04), marca a fase de contato permanente entre os Apinayé e agentes da sociedade nacional. Portanto, o ano de 1797 é a data da fundação do Posto Militar de São João das Duas Barras (hoje São João do Araguaia) e provavelmente quando pressões sobre o território indígena fizeram com que os Apinayé reagissem violentamente à expansão da sociedade regional. Foi quando tiveram suas plantações destruídas e, após o seu revide, tiveram suas aldeias bombardeadas com peças de artilharia.
Grupos Sociais Apinayé Os Apinayé contrastam a forma de suas aldeias com a das cidades do interior que, para eles, têm seu efeito urbano baseado em linhas de casas que crescem paralelamente a uma estrada ou a um rio, como é, sem dúvida, o caso de Tocantinópolis e dos povoados próximos às aldeias. Para Da Matta (idem. 67), “os Apinayé comentam que, enquanto as aldeias dos índios têm problemas para aumentar ou diminuir, as cidades dos não-indígenas crescem facilmente, pois se trata apenas de colocar no final das linhas mais uma casa. Suas possibilidades de extensão são, portanto, infinitas aos olhos doa Apinayé. A forma urbana brasileira é considerada aberta, em oposição ao padrão Apinayé que é considerado fechado.”
Segundo Da Matta (idem. 68), "falar em sociedade Apinayé, implica para esses indígenas tornar a aldeia como ponto de referência é, posteriormente, fazer oposições entre grupos sociais é categorias utilizando um eixo diametral ou eixo concêntrico. Para o autor (idem), a ordem social é, pois, obtida pelas oposições é o dinamismo do sistema é dado péla passagem de uma a outra dimensão antitética."
Desse modo, falar sobre grupo social Apinayé, é de certa forma, estabelecer essas divisões é revelar o significado das passagens de um a outro domínio do sistema. Assim, segundo Da Matta (idem), "um desses domínios é o da periferia da aldeia, apresentado pelas casas é grupos domésticos. O outro é o da praça, centro ou pátio central, representado pelos dois pares de metades cerimoniais, Kolti é Kolre."
Grupo Familiar ApinayéPara os Apinayé os dois grupos melhor definidos na vida cotidiana são a família nuclear (composta por maridos, mulher e filhos) e a família extensa uxorilocal (composta por um casal, os maridos é os filhos de suas filhas). Não há casas sem que haja pelo menos uma família nuclear, embora haja casas sem famílias extensas. Como conseqüência disto, segundo Da Matta (idem.68), homens e mulheres solteiros não têm o direito de construir casas para si próprios, bem como não existe nenhuma residência erigia no centro da aldeia, destinada a servir de residência permanente para homens é rapazes solteiros. Os rapazes a serem iniciados apenas residem na mata, por algum tempo com sua classe de idade durante certo período, na época das iniciações.
Tanto em Riachinho quanto em Bonito existem mais casas ocupadas por famílias extensas do que por famílias nucleares. Para Da Matta (idem 69), a base da composição da família extensa é a residência uxorilocal para os homens, que assim deixam seus lugares em seus grupos natais para os maridos das suas irmãs. Deste modo, enquanto a família nuclear é um grupo onde pai, mãe e filhos se ligam uns aos outros de modo simétrico e complementar, na família extensa o lado feminino é básico, pois é em volta dos laços mãe-filha que o grupo é formado.
Os Apinayé não possuem nenhum conceito específico para os dois grupos mencionados acima. Eles não falam em famílias extensas como grupos de parentesco em potencial, nem falam em famílias nucleares como unidades relevantes desses grupos. Cada casa "ikré" ou "nhõr-kwán" (morada, residência) possui uma família nuclear ou extensa, sendo segundo Da Malta (idem. 74), concebida teórica ou formalmente como uma unidade social, política e potencialmente independente.
Por conseguinte, a casa, como a aldeia, fica motivada em termos de um lado cotidiano e privado , que é o lado de trás, e de um lado cerimonial e público, dos caminhos (ngó prú) que levam ao pátio. Portanto, os Apinayé, de m do coerente com essas divisões, chamam a parte da casa que sai para o pátio de "ikré apême" (frente da casa) e "ikré katúd-lé" (parte dos fundos).
Deste modo, de acordo com Da Matta (idem.75), nos rituais, é a parte da frente da casa que é tomada como referência. Já a parte de trás é utilizada para as trocas diárias de comida e é lá que os Apinayé realizam seus trabalhos, como por exemplo, pilar arroz, descascar mandioca e extrair óleo do coco babaçu. A parte da frente da casa pertence à aldeia e está ligada diretamente ao pátio central. Para o autor (i em.76) desta forma, enquanto a parte dos fundos da casa está situada numa área marginal, nas fronteiras da sociedade Apinayé, a parte da frente está totalmente imersa no sistema social.
O sistema social Apinayé é divido em dois campos complementares: o campo das relações domésticas, relacionadas em termos de substâncias comuns que unem os seus familiares; e o campo das relações sociais ou cerimoniais, relacionadas em termos de obrigações rituais e políticas. Segundo Da Matta (idem.95), esses dois campos se cortam na vida cotidiana, mas a sua concepção como sendo domínios divididos e separados é fundamental para uma interpretação do mundo social Apinayé.
Este item destinou-se a mostrar resumidamente a vi a cotidiana Apinayé. A seguir focalizaremos o dualismo Apinayé e suas metades kolti e kolre.
O Dualismo Apinayé: Metades Kolti e KolreTodos os índios Apinayé de ambos os sexos pertencem a uma dessas metades que lhes são transmitidas com os nomes. Muitas vezes, em virtude c o recebimento de dois grupos de nomes, um índio pode pertencer às duas metades ao m sino tempo. Para Da Matta (idem. 100), isso não acarreta nenhum problema de divisão de lealdade ou personalidade . Pelo contrário, eles tomam essa possibilidade de escolha como a vantagem e desde que o indígena duplamente filiado escolha o seu grupo durante um ato cerimonial, ele tem todas as prerrogativas do grupo escolhido. Como esses grupos só entram m plena atividade durante as festas, a dupla escolha não constitui um problema e a definição c a filiação fica relegada a uma decisão contextual.
De acordo com Nimuendaju (idem. 1 S), esses grupos são chamados de metades, porque esta é a ideologia utilizada pelos índios para conceitualizar essas divisões. Os Apinayé, como todos os outros Jê, concebem o universo como uma totalidade fechada, onde todos os seus elementos são ordenados dois a dois, uns em oposição aos outros.
De fato, para os Apinayé, o Sol e a Lua são as duas entidades masculinas que criaram o universo e a humanidade, quando resolveram descer para a terra que estava imersa no caos. Entretanto, os Apinayé sempre se referem ao Sol como o principal elemento. Foi ele quem teve a iniciativa de vir para a terra e é ele quem, geralmente, tem a primazia nas ações do mito que relata a criação do universo segundo esses indígenas.
Segundo Da Matta (idem. 102), quando se torra o mesmo mito de um ponto de vista mais geral, verifica-se que é inconcebível a existência do Sol sem a existência da Lua, do mesmo modo que na sociedade Apinayé é impossível se ter a metade Kolti (associado ao Sol e por ele criada) sem se ter o grupo Kolre (associado à lua e por ela criada). Para esse autor, quando se observam os modos de interação dessas entidades, nota-se que elas tendem a uma hierarquização, com a preeminência do Sol e, conseqüentemente, do grupo Kolti, que tem as prioridades nos rituais. Mesmo assim ainda há complementaridade, pois a metade Kolti se caracteriza como o grupo líder e a Kolre como o grupo complementar dos seguidores.
Pelo que podemos observar, essas metades remetem ao universo Apinayé uma série de oposições cosmológicas.
Para Da Matta (idem. 104), a divisão Kolti e Kolre, como conseqüência, realinha relações sociais em termos de princípios que atravessa toda a sociedade Apinayé e assim levam a orientação dos seus membros para as dimensões mais universais e coletivas do sistema. Segundo este autor, os Apinayé ritualizam as relações categórias de sua sociedade em pares opostos. Isto ocorre com o sistema de metades, quando a divisão em Kolti e Kolre orienta as ações sociais da comunidade para categorias mais radicais e universais como a oposição entre sexo, idade e status marital.
Muitas vezes, as metades Kolti e Kolre aparecem como times destinados a trazer toras para a aldeia, num jogo que é característico de todos os Jê do Brasil Central.
Atual Situação Apinayé Os índios Apinayé começaram a ser integrados à história do Brasil com a Ocupação do sertão nordestino e com a intensificação da navegação do rio Tocantins. A ocupação do sertão do Maranhão, da Bahia e do Piauí é conseqüência da criação extensiva de gado que, no período Colonial, servia para alimentar as populações dos engenhos litorâneos. Esse gado, porém, avançou pelos sertões até chegar ao sertão goiano, atual Tocantins, na região onde se achavam índios. A frente pastoril é, como salienta Melatti (1993.185), caracterizada pela criação de gado que avança pelos territórios indígenas, a fim de tomar suas terras para usá-las na expansão do rebanho.
A história dos Apinayé, dessa forma, é a história do norte de Goiás por representantes de uma frente pastoril e outra que utilizou o rio Tocantins e que, certamente, era constituída de remanescentes das zonas de mineração do sul de Goiás.
Atualmente, as terras indígenas Apinayé sofrem a interferência direta de três rodovias: TO 126 que liga os municípios de Tocantinópolis e Maurilândia, seccionando toda a reserva no sentido norte-sul, a TO 134, trecho Angico entroncamento BR 230 e a Transamazônica, onde ao longo de seu eixo, estão localizadas três aldeias: São José, Patizal e Cocalinho. Já ao longo da BR 126, estão localizadas as outras quatro aldeias: Mariazinha, Riachinho, Bonito e Botica.
Antes da demarcação da área Apinayé, os índios eram distribuídos apenas em duas aldeias, São José e Mariazinha. Porém, após a demarcação, os Apinayé se distribuíram pelo território, formando novas aldeias e , deste modo, passando a ter um maior controle sobre a área.
Os Apinayé vivem em aldeias situadas no extremo norte do Estado do Tocantins. Localizam-se na região compreendida pela confluência dos rios Tocantins e Araguaia, atualmente conhecida como “Bico do Papagaio”.
As aldeias têm a vantagem de estar situadas em terrenos parcialmente elevados e perto dos ribeirões perenes que deságuam nos rios Araguaia e Tocantins. Deste modo, os Apinayé, como os Jê do Norte, preferem localizar suas aldeias no campo, utilizando as matas para pesca, a caça e a agricultura.
Para Da Matta (idem.48), os índios Apinayé dependem menos da caça e mais da agricultura e da coleta de coco babaçu, vendido no comércio regional. Enquanto a caça e a agricultura estão relacionadas a um modo basicamente de exploração do ambiente natural, o babaçu como produto dotado de permanente valor no mercado da região é uma atividade essencialmente dependente da dinâmica da economia brasileira.
Os Apinayé, porém, ao falarem da história de suas aldeias, enquadram o desenrolar dos acontecimentos como parte da história regional e como parte da estrutura política das aldeias e da comunidade.
Embora os dados demográficos atuais indiquem que a população Apinayé esteja aumentando, a história da tribo revela, com clareza, uma tendência no sentido de sua redução.
A trajetória Apinayé dentro da sociedade brasileira seria, segundo Da Matta (idem), marcada por um atrelamento maior em termos políticos e econômicos, mas simultaneamente por uma maior autonomia em domínios tais como a arte e a religião, áreas privilegiadas para a manifestação do “poder dos fracos”. E já ocorrem sintomas deste trajeto, na medida em que esses índios passam a ter mais influência junto às doenças da região (curando) e produzindo artesanatos para serem consumidos nos grandes centros da sociedade brasileira.
A situação entre os Apinayé e a sociedade majoritária é complexa e enquadrada por valores que parecem estar diretamente relacionados com o tipo de produto basicamente explorado na região, o tempo de sua ocupação, agências de contatos e a sociologia dos aglomerados regionais, urbanos e rurais. Isto, para Da Matta (idem), não significa que é possível justificar as arbitrariedades sempre cometidas contra os índios, como por exemplo, a sua permanente falta de assistência médico-sanitária.
Estado: TO.
População: 1399
A situação de contato dos ApinayéA existência dos índios Apinayé no extremo norte do Tocantins é conhecida desde o século XVIII, quando os rios Araguaia e Tocantins começaram a ser navegados pelos jesuítas e bandeirantes. Esses indígenas eram considerados como os mais poderosos da região, possuíam aldeias bastante numerosas, praticavam a agricultura e produziam seus próprios artefatos como, por exemplo, as canoas.
De acordo com Nimuendaju (1983.4), a partir de 1797, o governo do Pará fundou às margens do Tocantins alguns postos militares como Alcobaça, Arapary e São João das Duas Barras, este localizado na boca do Araguaia. A finalidade destes postos era evitar o extravio do ouro, a fuga dos escravos de Camutá para Goiás, bem como conter as permanentes agressões dos Karajá e Apinayé aos fazendeiros da região. Portanto, a fundação destes postos marcou o contato permanente dos Apinayé com a sociedade nacional.
Segundo o autor (idem.36), apesar de manter um contato prolongado com a sociedade brasileira, os Apinayé se distinguem dos regionais por alguns traços que tendem a desaparecer. No caso masculino são os cabelos (maiores que os usados no sertão), os furos dos lábios e orelhas (somente encontrados nos homens mais velhos da comunidade) e, no caso das mulheres, a vestimenta que deixa busto nu, exceto quando vão a Tocantinópolis.
População: 1399
A situação de contato dos ApinayéA existência dos índios Apinayé no extremo norte do Tocantins é conhecida desde o século XVIII, quando os rios Araguaia e Tocantins começaram a ser navegados pelos jesuítas e bandeirantes. Esses indígenas eram considerados como os mais poderosos da região, possuíam aldeias bastante numerosas, praticavam a agricultura e produziam seus próprios artefatos como, por exemplo, as canoas.
De acordo com Nimuendaju (1983.4), a partir de 1797, o governo do Pará fundou às margens do Tocantins alguns postos militares como Alcobaça, Arapary e São João das Duas Barras, este localizado na boca do Araguaia. A finalidade destes postos era evitar o extravio do ouro, a fuga dos escravos de Camutá para Goiás, bem como conter as permanentes agressões dos Karajá e Apinayé aos fazendeiros da região. Portanto, a fundação destes postos marcou o contato permanente dos Apinayé com a sociedade nacional.
Segundo o autor (idem.36), apesar de manter um contato prolongado com a sociedade brasileira, os Apinayé se distinguem dos regionais por alguns traços que tendem a desaparecer. No caso masculino são os cabelos (maiores que os usados no sertão), os furos dos lábios e orelhas (somente encontrados nos homens mais velhos da comunidade) e, no caso das mulheres, a vestimenta que deixa busto nu, exceto quando vão a Tocantinópolis.
Sociedade Apinayé – Contatos
Os primeiros contatos dos Apinayé com a sociedade majoritária aconteceram no final do século XVIII, quando o rio Tocantins começou a ser navegado em todo seu percurso pelos bandeirantes paulistas que capturavam escravos nesse rio.
Segundo Nimuendaju (1983.01), os Apinayé foram encontrados pela sociedade dita "civilizada", primeiro pelos jesuítas e mais tarde pelos bandeirantes e pelos escravos fugitivos das minas de Goiás, os quais se estabeleceram nas margens do Araguaia e Tocantins.
Havia grande interesse em escravizar os indígenas para auxiliarem os viajantes na passagem das cachoeiras do rio Tocantins, uma vez que só eles conheciam o rio e constituíam a única mão-de-obra da região. O final do século XVIII, para Nimuendaju (idem. 04), marca a fase de contato permanente entre os Apinayé e agentes da sociedade nacional. Portanto, o ano de 1797 é a data da fundação do Posto Militar de São João das Duas Barras (hoje São João do Araguaia) e provavelmente quando pressões sobre o território indígena fizeram com que os Apinayé reagissem violentamente à expansão da sociedade regional. Foi quando tiveram suas plantações destruídas e, após o seu revide, tiveram suas aldeias bombardeadas com peças de artilharia.
Apesar da guerra e da varíola, naquela época, os Apinayé constituíam uma das tribos mais numerosas da região, distribuídos em quatro aldeias, somando um total de 4.200 indígenas.
De modo geral , como vem acontecendo, ao longo dos anos, com as comunidades indígenas no Brasil, os Apinayé também enfrentaram vários tipos de problemas, como a invasão de suas terras, seja por fazendeiros, posseiros ou pelos meeiros (aqueles que usam as terras indígenas para plantar de metade). Segundo a Administração Regional da FUNAI de Araguaína, atualmente, a alternativa encontrada pelos Apinayé tem sido a de se aliarem à FUNAI, criando os postos de vigilância do Pontal e Veredão, como estratégia nas divisas da reserva, para evitar novas invasões por parte dos fazendeiros da região.
A história do contato dos Apinayé com a sociedade envolvente é marcada também por várias agências, como mostra a tabela a seguir, baseada em informações da FUNAI, e em outras conseguidas "in loco".
Segundo Da Matta (1993.203), essas agências são capazes de exercer, nessas comunidades, coerção de modo direto no processo político das aldeias, cada qual com sua imagem do índio, imagem determinada socialmente pelos seus interesses sociais e políticos.
De modo geral , como vem acontecendo, ao longo dos anos, com as comunidades indígenas no Brasil, os Apinayé também enfrentaram vários tipos de problemas, como a invasão de suas terras, seja por fazendeiros, posseiros ou pelos meeiros (aqueles que usam as terras indígenas para plantar de metade). Segundo a Administração Regional da FUNAI de Araguaína, atualmente, a alternativa encontrada pelos Apinayé tem sido a de se aliarem à FUNAI, criando os postos de vigilância do Pontal e Veredão, como estratégia nas divisas da reserva, para evitar novas invasões por parte dos fazendeiros da região.
A história do contato dos Apinayé com a sociedade envolvente é marcada também por várias agências, como mostra a tabela a seguir, baseada em informações da FUNAI, e em outras conseguidas "in loco".
Segundo Da Matta (1993.203), essas agências são capazes de exercer, nessas comunidades, coerção de modo direto no processo político das aldeias, cada qual com sua imagem do índio, imagem determinada socialmente pelos seus interesses sociais e políticos.
Grupos Sociais Apinayé Os Apinayé contrastam a forma de suas aldeias com a das cidades do interior que, para eles, têm seu efeito urbano baseado em linhas de casas que crescem paralelamente a uma estrada ou a um rio, como é, sem dúvida, o caso de Tocantinópolis e dos povoados próximos às aldeias. Para Da Matta (idem. 67), “os Apinayé comentam que, enquanto as aldeias dos índios têm problemas para aumentar ou diminuir, as cidades dos não-indígenas crescem facilmente, pois se trata apenas de colocar no final das linhas mais uma casa. Suas possibilidades de extensão são, portanto, infinitas aos olhos doa Apinayé. A forma urbana brasileira é considerada aberta, em oposição ao padrão Apinayé que é considerado fechado.”
Segundo Da Matta (idem. 68), "falar em sociedade Apinayé, implica para esses indígenas tornar a aldeia como ponto de referência é, posteriormente, fazer oposições entre grupos sociais é categorias utilizando um eixo diametral ou eixo concêntrico. Para o autor (idem), a ordem social é, pois, obtida pelas oposições é o dinamismo do sistema é dado péla passagem de uma a outra dimensão antitética."
Desse modo, falar sobre grupo social Apinayé, é de certa forma, estabelecer essas divisões é revelar o significado das passagens de um a outro domínio do sistema. Assim, segundo Da Matta (idem), "um desses domínios é o da periferia da aldeia, apresentado pelas casas é grupos domésticos. O outro é o da praça, centro ou pátio central, representado pelos dois pares de metades cerimoniais, Kolti é Kolre."
Grupo Familiar ApinayéPara os Apinayé os dois grupos melhor definidos na vida cotidiana são a família nuclear (composta por maridos, mulher e filhos) e a família extensa uxorilocal (composta por um casal, os maridos é os filhos de suas filhas). Não há casas sem que haja pelo menos uma família nuclear, embora haja casas sem famílias extensas. Como conseqüência disto, segundo Da Matta (idem.68), homens e mulheres solteiros não têm o direito de construir casas para si próprios, bem como não existe nenhuma residência erigia no centro da aldeia, destinada a servir de residência permanente para homens é rapazes solteiros. Os rapazes a serem iniciados apenas residem na mata, por algum tempo com sua classe de idade durante certo período, na época das iniciações.
Tanto em Riachinho quanto em Bonito existem mais casas ocupadas por famílias extensas do que por famílias nucleares. Para Da Matta (idem 69), a base da composição da família extensa é a residência uxorilocal para os homens, que assim deixam seus lugares em seus grupos natais para os maridos das suas irmãs. Deste modo, enquanto a família nuclear é um grupo onde pai, mãe e filhos se ligam uns aos outros de modo simétrico e complementar, na família extensa o lado feminino é básico, pois é em volta dos laços mãe-filha que o grupo é formado.
Os Apinayé não possuem nenhum conceito específico para os dois grupos mencionados acima. Eles não falam em famílias extensas como grupos de parentesco em potencial, nem falam em famílias nucleares como unidades relevantes desses grupos. Cada casa "ikré" ou "nhõr-kwán" (morada, residência) possui uma família nuclear ou extensa, sendo segundo Da Malta (idem. 74), concebida teórica ou formalmente como uma unidade social, política e potencialmente independente.
Por conseguinte, a casa, como a aldeia, fica motivada em termos de um lado cotidiano e privado , que é o lado de trás, e de um lado cerimonial e público, dos caminhos (ngó prú) que levam ao pátio. Portanto, os Apinayé, de m do coerente com essas divisões, chamam a parte da casa que sai para o pátio de "ikré apême" (frente da casa) e "ikré katúd-lé" (parte dos fundos).
Deste modo, de acordo com Da Matta (idem.75), nos rituais, é a parte da frente da casa que é tomada como referência. Já a parte de trás é utilizada para as trocas diárias de comida e é lá que os Apinayé realizam seus trabalhos, como por exemplo, pilar arroz, descascar mandioca e extrair óleo do coco babaçu. A parte da frente da casa pertence à aldeia e está ligada diretamente ao pátio central. Para o autor (i em.76) desta forma, enquanto a parte dos fundos da casa está situada numa área marginal, nas fronteiras da sociedade Apinayé, a parte da frente está totalmente imersa no sistema social.
O sistema social Apinayé é divido em dois campos complementares: o campo das relações domésticas, relacionadas em termos de substâncias comuns que unem os seus familiares; e o campo das relações sociais ou cerimoniais, relacionadas em termos de obrigações rituais e políticas. Segundo Da Matta (idem.95), esses dois campos se cortam na vida cotidiana, mas a sua concepção como sendo domínios divididos e separados é fundamental para uma interpretação do mundo social Apinayé.
Este item destinou-se a mostrar resumidamente a vi a cotidiana Apinayé. A seguir focalizaremos o dualismo Apinayé e suas metades kolti e kolre.
O Dualismo Apinayé: Metades Kolti e KolreTodos os índios Apinayé de ambos os sexos pertencem a uma dessas metades que lhes são transmitidas com os nomes. Muitas vezes, em virtude c o recebimento de dois grupos de nomes, um índio pode pertencer às duas metades ao m sino tempo. Para Da Matta (idem. 100), isso não acarreta nenhum problema de divisão de lealdade ou personalidade . Pelo contrário, eles tomam essa possibilidade de escolha como a vantagem e desde que o indígena duplamente filiado escolha o seu grupo durante um ato cerimonial, ele tem todas as prerrogativas do grupo escolhido. Como esses grupos só entram m plena atividade durante as festas, a dupla escolha não constitui um problema e a definição c a filiação fica relegada a uma decisão contextual.
De acordo com Nimuendaju (idem. 1 S), esses grupos são chamados de metades, porque esta é a ideologia utilizada pelos índios para conceitualizar essas divisões. Os Apinayé, como todos os outros Jê, concebem o universo como uma totalidade fechada, onde todos os seus elementos são ordenados dois a dois, uns em oposição aos outros.
De fato, para os Apinayé, o Sol e a Lua são as duas entidades masculinas que criaram o universo e a humanidade, quando resolveram descer para a terra que estava imersa no caos. Entretanto, os Apinayé sempre se referem ao Sol como o principal elemento. Foi ele quem teve a iniciativa de vir para a terra e é ele quem, geralmente, tem a primazia nas ações do mito que relata a criação do universo segundo esses indígenas.
Segundo Da Matta (idem. 102), quando se torra o mesmo mito de um ponto de vista mais geral, verifica-se que é inconcebível a existência do Sol sem a existência da Lua, do mesmo modo que na sociedade Apinayé é impossível se ter a metade Kolti (associado ao Sol e por ele criada) sem se ter o grupo Kolre (associado à lua e por ela criada). Para esse autor, quando se observam os modos de interação dessas entidades, nota-se que elas tendem a uma hierarquização, com a preeminência do Sol e, conseqüentemente, do grupo Kolti, que tem as prioridades nos rituais. Mesmo assim ainda há complementaridade, pois a metade Kolti se caracteriza como o grupo líder e a Kolre como o grupo complementar dos seguidores.
Pelo que podemos observar, essas metades remetem ao universo Apinayé uma série de oposições cosmológicas.
Para Da Matta (idem. 104), a divisão Kolti e Kolre, como conseqüência, realinha relações sociais em termos de princípios que atravessa toda a sociedade Apinayé e assim levam a orientação dos seus membros para as dimensões mais universais e coletivas do sistema. Segundo este autor, os Apinayé ritualizam as relações categórias de sua sociedade em pares opostos. Isto ocorre com o sistema de metades, quando a divisão em Kolti e Kolre orienta as ações sociais da comunidade para categorias mais radicais e universais como a oposição entre sexo, idade e status marital.
Muitas vezes, as metades Kolti e Kolre aparecem como times destinados a trazer toras para a aldeia, num jogo que é característico de todos os Jê do Brasil Central.
Atual Situação Apinayé Os índios Apinayé começaram a ser integrados à história do Brasil com a Ocupação do sertão nordestino e com a intensificação da navegação do rio Tocantins. A ocupação do sertão do Maranhão, da Bahia e do Piauí é conseqüência da criação extensiva de gado que, no período Colonial, servia para alimentar as populações dos engenhos litorâneos. Esse gado, porém, avançou pelos sertões até chegar ao sertão goiano, atual Tocantins, na região onde se achavam índios. A frente pastoril é, como salienta Melatti (1993.185), caracterizada pela criação de gado que avança pelos territórios indígenas, a fim de tomar suas terras para usá-las na expansão do rebanho.
A história dos Apinayé, dessa forma, é a história do norte de Goiás por representantes de uma frente pastoril e outra que utilizou o rio Tocantins e que, certamente, era constituída de remanescentes das zonas de mineração do sul de Goiás.
Atualmente, as terras indígenas Apinayé sofrem a interferência direta de três rodovias: TO 126 que liga os municípios de Tocantinópolis e Maurilândia, seccionando toda a reserva no sentido norte-sul, a TO 134, trecho Angico entroncamento BR 230 e a Transamazônica, onde ao longo de seu eixo, estão localizadas três aldeias: São José, Patizal e Cocalinho. Já ao longo da BR 126, estão localizadas as outras quatro aldeias: Mariazinha, Riachinho, Bonito e Botica.
Antes da demarcação da área Apinayé, os índios eram distribuídos apenas em duas aldeias, São José e Mariazinha. Porém, após a demarcação, os Apinayé se distribuíram pelo território, formando novas aldeias e , deste modo, passando a ter um maior controle sobre a área.
Os Apinayé vivem em aldeias situadas no extremo norte do Estado do Tocantins. Localizam-se na região compreendida pela confluência dos rios Tocantins e Araguaia, atualmente conhecida como “Bico do Papagaio”.
As aldeias têm a vantagem de estar situadas em terrenos parcialmente elevados e perto dos ribeirões perenes que deságuam nos rios Araguaia e Tocantins. Deste modo, os Apinayé, como os Jê do Norte, preferem localizar suas aldeias no campo, utilizando as matas para pesca, a caça e a agricultura.
Para Da Matta (idem.48), os índios Apinayé dependem menos da caça e mais da agricultura e da coleta de coco babaçu, vendido no comércio regional. Enquanto a caça e a agricultura estão relacionadas a um modo basicamente de exploração do ambiente natural, o babaçu como produto dotado de permanente valor no mercado da região é uma atividade essencialmente dependente da dinâmica da economia brasileira.
Os Apinayé, porém, ao falarem da história de suas aldeias, enquadram o desenrolar dos acontecimentos como parte da história regional e como parte da estrutura política das aldeias e da comunidade.
Embora os dados demográficos atuais indiquem que a população Apinayé esteja aumentando, a história da tribo revela, com clareza, uma tendência no sentido de sua redução.
A trajetória Apinayé dentro da sociedade brasileira seria, segundo Da Matta (idem), marcada por um atrelamento maior em termos políticos e econômicos, mas simultaneamente por uma maior autonomia em domínios tais como a arte e a religião, áreas privilegiadas para a manifestação do “poder dos fracos”. E já ocorrem sintomas deste trajeto, na medida em que esses índios passam a ter mais influência junto às doenças da região (curando) e produzindo artesanatos para serem consumidos nos grandes centros da sociedade brasileira.
A situação entre os Apinayé e a sociedade majoritária é complexa e enquadrada por valores que parecem estar diretamente relacionados com o tipo de produto basicamente explorado na região, o tempo de sua ocupação, agências de contatos e a sociologia dos aglomerados regionais, urbanos e rurais. Isto, para Da Matta (idem), não significa que é possível justificar as arbitrariedades sempre cometidas contra os índios, como por exemplo, a sua permanente falta de assistência médico-sanitária.
Fonte:
- ALBUQUERQUE, Francisco E. Contato dos Apinayé de Riachinho e Bonito com o português: Aspectos da Situação Sociolingüística. Dissertação de Mestrado. Goiânia: UFG, 1999. p. 5; 8-10; 45-46; 48-52.
- ALBUQUERQUE, Francisco E. Contato dos Apinayé de Riachinho e Bonito com o português: Aspectos da Situação Sociolingüística. Dissertação de Mestrado. Goiânia: UFG, 1999. p. 5; 8-10; 45-46; 48-52.
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