sábado, 25 de maio de 2013

Mulheres Apinayé: Gênero, Memória e Identidade.



Rosimar Locatelli*[1]
Pedagogia - UFT
Introdução



*[1]  Aluna da Pós-graduação de Gerontologia pela UFT, graduada do Curso de Pedagogia da Universidade Federal do Tocantins-UFT. Artista plástica, Indigenista e pesquisadora das questões indígena Apinayé.

 O direito, o reconhecimento e valorização social independente de opção sexual, de gênero, etnia, cor ou divisão de classe, isso é o que todos e todas queremos, mas infelizmente o modelo econômico e social do mundo desfavorece algumas classes, e a luta por esse reconhecimento esta intrinsicamente ligado principalmente às questões de gênero, tal fato acontece, tanto no seio de uma sociedade vigente, como no cotidiano de uma aldeia, que ao longo do tempo foi estabelecida a diferença entre os papeis de homens e mulheres nas relações sociais. No entanto, sabemos que a luta para a formação de uma consciência de gênero é desafiada sempre nessas relações desiguais entre homens e mulheres, que a cada dia vem sendo desestruturada pelas lutas de mulheres militantes indígenas e não indígenas.
Este trabalho pretende fazer um estudo sobre a visão critica das mulheres Apinayé, investigar-se-á se essa realidade de luta e de consciência é vivenciada por elas na realidade dentro da aldeia São José em Tocantinópolis. A priori, pretende-se compreender o papel da mulher Apinayé nesta sociedade. Diante desta perspectiva observar-se-á, seu desempenho diante das questões de gênero. Será que elas reproduzem as lutas feministas a favor de liberdade e autonomia, na visão critica dos direitos das mulheres indígenas brasileiras?
É necessário destacar que esse estudo traz informações sobre a percepção das atividades do cotidiano das mulheres Apinayé, do casamento, da menstruação, da divisão do trabalho, da participação política, e a percepção que as mulheres têm das ideias de autonomias feministas, etc. Essas informações foram colidas através de observações e entrevistas semi-estruturadas, realizadas durante 20 dias de visitas na aldeia, por meio de uma pesquisa de campo.
A proposta inicial deste texto é discutir sobre esta questão de gênero e cultura a partir de algumas ideias a propósito do assunto, legitimando por alguns autores como, Héritier (1996), que tem estudado o relacionamento familiar e de casal, reflete sobre as representações de gênero, de pessoa, de procriação e de partes do corpo na biologia e na psicologia, identificadas e reconhecidas em todos os tempos e lugares. Afirma que estas unidades são ajustadas e recompostas segundo diversas fórmulas lógicas possíveis, mas possíveis também porque pensadas segundo as culturas.
Aqui, levar-se-á em consideração o aspecto cultural dominante na sociedade indígena, sem esquecer seus costumes e tradições, e do significado de liberdade e autonomia feminina a partir de uma ótica indígena, para isso, contatar-se-á com os discursos e manifestos atuais das mulheres indígenas, numa concepção contemporânea do tema.

Mulher indígena memoria e identidade: a luta por um espaço de direito 

Para as mulheres indígenas brasileiras, essa luta emana consequentemente da cultura, não se pode descartar essa concepção cultural que para o povo indígena é o que move suas ações.
No entanto é chegada a hora dessas mulheres serem reconhecidas e respeitadas como tal, a notar dentro das leis onde encontramos o verdadeiro reconhecimento aos direitos dessas mulheres?
 A Lei Maria da Penha (Lei n.º 11.340, de 7 de agosto de 2006) dispõe, no seu art. 2º:
Toda mulher, independente de classe, raça, etnia, orientação sexual, renda, cultura, nível educacional, idade e religião, goza dos direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sendo-lhe asseguradas as oportunidades e facilidades para viver sem violência, preservar sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual e social.
É claro que a lei Maria da Penha que coíbe a violência doméstica e familiar contra a mulher também acolhe as vítimas indígenas. Obviamente não poderia ser diferente. O que se percebe é que a lei não leva em consideração as especificidades étnicas e culturais dos povos indígenas. O contato com o machismo da sociedade não indígena tem influenciado as ações dos homens indígenas, isso recai na fragilidade da mulher indígena, que não tem sua integridade garantida dentro das aldeias. Na maioria ao menos conhecem seus direitos.
  Percebemos mediante esse estudo que a mulher indígena tem sido vista como uma mulher comum que inserida numa sociedade tem seus direitos assegurados, e vista de forma global, onde seus direitos estão mascarados no papel da mulher branca ou mulher negra e nunca mulher indígena, lhes é negada a possibilidade de as autoridades municipais e estaduais não poderem agir dentro das aldeias em caso de alguma agressão, ate mesmo lhe e negado o fato de não conhecerem da lei, não sabem que agressões verbais e os abusos domésticos são crimes, e por tanto não se encorajam pela denuncia.
Ainda é mínima ao quase invisível a atenção dada a essas mulheres que vivem invisíveis as leis aos diretos de existência de forma digna, essa “invisibilidade” é ainda maior. O dossiê sobre “Mulheres Indígenas”, publicado pela Revista Estudos Feministas[1], aponta para a necessidade da ampliação de estudos com enfoque de gênero para essa população específica, e a pouca atenção às especificidades das mulheres indígenas, de outro.
Apesar de tão pouca visibilidade, ao longo dos anos as mulheres indígenas vem se organizando e pouco a pouco construindo seu espaço e fortalecendo suas lutas, construindo suas organizações de direito em busca de uma autonomia.
Segundo SACCH (2003);
As duas primeiras organizações brasileiras exclusivas de mulheres indígenas surgiram na década de 1980, sendo consideradas as pioneiras a Associação de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro (Amarn) e a Associação de Mulheres Indígenas do Distrito de Taracuá, rios Uaupés e Tiquié (Amitrut). Em 2000, em Assembleia da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) foi reivindicada a criação de um espaço para as demandas das mulheres indígenas. Em 2002, no decorrer do I Encontro de Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira, foi criado o Departamento de Mulheres Indígenas (DMI/Coiab), com o objetivo de defender os seus direitos e interesses nos vários âmbitos de representação, nacional e internacional. Em 2006, pela primeira vez na história das políticas públicas pós-Constituição Federal de 1988, se incluiu num Plano Plurianual (PPA) uma ação específica para as mulheres indígenas: o Programa Identidade Étnica e Patrimônio Cultural dos Povos Indígenas, sob a responsabilidade da Fundação Nacional do Índio (Funai). Finalmente, em janeiro de 2007, foi criado, no âmbito da Funai, um departamento específico de mulheres indígenas.
Como podemos perceber, as mulheres indígenas estão lutando por sua identidade, buscando seu espaço, na guerra contra a discriminação e falta de respeito, não se pode mais conceber uma sociedade que não entenda o verdadeiro papel que cada mulher ocupa dentro de sociedades distintas como podemos perceber nas palavras da Militante indígena Pataxó Hã-hã-hãe[2] (em depoimento 2007):
Com o passar do tempo a vida de nós mulheres indígenas vem mudando muito, pois antigamente nós tínhamos nossos afazeres limitados a cuidar dos filhos e da manutenção das roças e das casas. Atualmente nós mulheres entramos na política e temos voz ativa nas decisões da aldeia. Voz que antes era restrita aos homens. Hoje temos mulheres ocupando cargo de cacique que antes era cargo limitado aos homens, por terem que viajar muito e tomar decisões mais serias para a vida do nosso povo. Na minha aldeia Pataxó Hã Hã Hãe, nós mulheres temos um espaço muito grande na política indígena, já tivemos mulher candidata a vereadora e temos mulheres ocupando cargo de lideres até de cacica. Vemos isso como um grande avanço para nossa sociedade. Isso também é prova que os homens indígenas não são tão machistas quanto se pensa, pois para nós mulheres conseguirmos esse tipo de cargo precisamos do apoio dos homens também e eles reconhecem que temos capacidade de assumir os cargos que conquistamos.
Queremos continuar crescendo nosso espaço político na aldeia e fora dela, pois somos capazes e isso é importante para acabar com o preconceito de que mulher indígena só serve pra cuidar dos filhos e da casa. Todo dia é dia da mulher indígena, pois trabalhamos muito duro pelo nosso povo, porém é importante termos uma data para comemorar nosso dia e é por isso que temos o dia 30 de outubro como o nosso dia.
Assim constitui-se a realidade de algumas mulheres indígenas, aqui retrata uma mulher pataxó que reconhece a necessidade de luta cada vez maior pela emancipação feminina de sua aldeia.
O próximo item, tratar-se-á da experiência entre os Apinayé, que nos coloca afrente de uma situação hegemônica sobre as questões de gêneros. Para entendermos como é dada essa visão ora identitária, vamos conhecer a vida das mulheres Apinayé da aldeia São José[3]. O que propomos,  é também o estudo sobre a visão critica das mulheres Apinayé, vamos investigar se essa realidade também faz parte da vida e do cotidiano dessas mulheres dentro da aldeia São José em Tocantinópolis.



[1] Esse Dossiê foi organizado pela Antropóloga Bruna Franchetto  para a Revista Estudos Feministas, vol.7, n.1. Rio de Janeiro/Instituto de Filosofia e Ciências Sociais/ Florianópolis/ Centro de Filosofia e Ciências Humans/IFSC, 1999.
[2]    Índia Pataxó - Depoimento disponível no site http://www.webbrasilindigena.org.
[3] Aldeia indígena Apinayé, situada no município de Tocantinópolis - TO

 Mulheres Apinayé: Trajetória e Identidade
Neste texto pretende-se decorrer à análise do material etnográfico, oriundo da observação sistemática e das entrevistas realizadas, as observações definidas, tais como: a percepção das atividades do cotidiano, do casamento, da menstruação, da divisão do trabalho, da participação política, e a percepção que as mulheres têm das ideias de autonomia, etc. Essas entrevistas, em sua maioria, foram realizadas durante 20 dias de visitas na aldeia.
Para conhecer a vida dessas mulheres e necessário uma investigação doravante empírica, para entender a vida cotidiana atual. Minha pesquisa se restringe a observação e entrevista com cinco mulheres Apinayé entre essas jovens e idosas que a priori as designarei com nomes fiquiticios, preservando assim sua identidade.
Embora as mulheres estejam muito presentes no cotidiano da aldeia, há lugares onde a sua presença é mais marcante no decorrer do dia. Geralmente elas vão para o rio, para lavar os pratos do almoço, tomar banho e dar banho nas crianças. Quando há roupas para lavar, elas levam de manhã. Essa atividade  geralmente não e feita sozinha, e feita em companhia de parentes próximas, mães e filhas, sogras e noras, juntamente com as crianças que estão sempre por perto, brincando e tomando banho. É realizada quase que diariamente.
As atividades entre as mulheres começam a partir dos 12 anos de idade já se trabalha em roça, já cuida da casa, já lava roupa, cuida dos irmãos mais novos, e participa de todas as responsabilidades domesticas junto com as mães.
Ao perguntar sobre o que é ser uma mulher Apinayé na sociedade atual, obteve-se a seguinte resposta de joana, nossa anfitriã, que cedeu sua casa e traduziu a maioria das respostas e perguntas feitas para as outras mulheres:
Ser uma mulher Apinayé não é muito fácil, tendo em vista que para nós tudo surgem muito cedo, casamos cedo, a responsabilidade com a casa e a cobrança da comunidade de que nós devemos ser boas esposas, que devemos cuidar bem da casa e dos filhos. A vida de nós mulheres Apinayé é voltado para a família. A maioria das mulheres tem muitos filhos, e seu tempo é preenchido com as coisas de casa. Apesar disso, me dediquei aos estudos, com muitas dificuldades me formei e hoje sou professora na escola, primeiro que só tive dois filhos e também tive apoio do meu marido que também é professor. (Joana[1] -2011)
Como podemos perceber nas palavras da Indígena Apinayé, doravante com vulgo de Joana,  as famílias se constituem muito cedo, com isso a responsabilidade das mulheres também, por tanto a dificuldade de se inserir no mercado de trabalho, nas discussões externas e no estudo torna-se ainda mais difícil.
Por tanto essa constituição familiar precoce, ou seja, na adolescência a mulher Apinayé já tem vida adulta, já começam a participar das atividades produtivas e reprodutivas, casam-se com idade entre 12 e 16 anos, e já estão produzindo outras crianças.   
Para entendermos essa realidade vamos conhecer a estrutura familiar Apinayé como consiste diante das pesquisas de Curt:
“Uma parentela de algum modo organizada, não existe. Ela se esboça na comunidade de casa que se compõe de diversas famílias, aparentadas entre sí pela linha feminina. Em média contam-se dez pessoas para uma casa... não existe nenhuma casa habitada por uma só família, sendo de seis o número maior de famílias reunidas sob o mesmo teto”.  (Nimuendajú, 1983 : 58).
Na leitura de Curt as parentelas são desorganizadas, de foto sim, porém mesmo com o tempo, ainda se mantem a linha feminina familiar, onde a mãe, ou mulher é o eixo da casa e quem distingue-se a parentela familiar, se sabe a existência de parentes por se tratar da sequência hierárquica matriarcal.
Em depoimento, Senhora Apinayé[2], diz que: “Apesar dos seus quase oitenta anos ainda cuida da casa, ajuda os filhos e netos” - e é quem domina a hierarquia da casa.
 No entanto, sua autonomia e chefia esta simplesmente remetida às condições domesticas, e ainda são submetidas a alguns fenômenos, resultado do contato com a sociedade não indígena, que a cada dia reproduz mais e mais estragos entre as sociedades indígenas. A violência aqui vivi entre as mulheres Apinayé, se refere na maioria ao resultado da bebida, o alcoolismo vem causando sérias consequências ao povo Apinayé, e a mulher é sem duvida a maior vitima. Que além de sofrer as agressões de seus homens bêbados, ainda são influenciadas pelo vício, fenômeno esse a cada dia mais crescente dentro da aldeia.
É uma situação muito preocupante, que infelizmente esta além de uma consciência politica emancipatória, que ainda não chegou entre as mulheres Apinayé, elas  ainda sofrem muitas agressões, o desrespeito por sua identidade, por seu espaço de autonomia, ainda é muito restrito aos mecanismos domésticos que muitas vezes e esquecido pelas violência sofrida pelos maridos quando estão bêbados.
Apesar da necessidade e consciência de uma aculturação feminista, as mulheres Apinayé, ainda estão longe dessa realidade. À Exemplo de Joana não temos outras que conseguirá seguir a vida acadêmica e ter voz ativa dentro da aldeia São José.
E visível que a mulher Apinayé segue o tradicionalismo cultural, ela ainda não esta afrente das relações de poder, a liderança e papeis políticos, continuam sobre o domínio dos homens, não e visto nenhuma mulher Cacique,  ou Pajé, por exemplo; nem no comandando das associações ou das comissões de lideranças entre os Apinayé da Aldeia São José.


[1]    Nome fictício para a Índia Apinayé - (Depoimento colido na Aldeia São José no dia 11/10/2011).   
[2]    Senhora Apinayé de 85 anos de idade, em depoimento na aldeia 18.10.2011.

O casamento: a tradição e o lugar da mulher
A mistura com a sociedade não índia mudou muita coisa junto aos Apinayé, muitos rituais e crenças foram esquecidos e substituídos pela cultura urbana, como ouvimos através do depoimento de um idoso Apinayé[1], “muitos rituais não existem mais entre o meu povo devido a aproximação do kupen[2], com o peny[3]. O  índio tá  cada vez mais se misturando com a cultura do homem branco, perdendo sua identidade e sua cultura,  vivendo a vida e os costumes dos brancos”.  
Essa é uma realidade entre os Apinayé, a cultura esta se transformando a cada dia, no casamento, antigamente, não era permitido o matrimônio entre primos, hoje, essa tradição já não é respeitada e os primos casam-se entre si. Mesmo, mantendo as tradições que começa pela escolha onde - O rapaz escolhe sua noiva livremente, não necessitando mais que seu pai a escolha, ou que estes tenham dormido juntos desde pequenos, ou ainda, que se tenha concluído a sua iniciação de guerreiro. Os padrinhos e madrinhas, marcam a data do casamento e fazem a preparação do mesmo. Cabe ao cacique, fazer o aconselhamento ao casal, falando de suas responsabilidades e obrigações .(segundo coletas de dados)
Enquanto o casal não residir em sua própria casa, o casal vai morar na casa da mulher, onde o pai é a autoridade máxima da família, até que esta tenha o seu primeiro filho, tornando-se a partir daí, o marido totalmente responsável pela esposa. Ao mudarem para sua própria casa, esta pertence ao homem, sendo que no caso de separação a mulher permanece na casa e o homem retorna à casa dos pais, casando-se novamente vai morar na casa do sogro.
Na medida em que, vamos conversando e colendo informações junto ao grupo,  encontramos algo curioso sobre o casamento dos Apinayé é que o homem preguiçoso dificilmente casa, pois a família da mulher e mesmo esta, não aceita casar-se com tal sujeito. Dada à esta situação a mulher tem aqui, pode-se perceber certa autonomia na escolha de seus maridos.




[1]    Idoso indígena da Aldeia São José. (depoimento 18/10/2011)
[2]    (homem branco)
[3]    (índio),
Divórcio e Adultério: Quem trai o Homem ou a Mulher?
A separação entre os Apinayé, apesar de não ser comum, pode acontecer em caso de incompatibilidade familiar[1], adultério, sendo que antigamente esta só acontecia se houvesse adultério por parte da mulher ou maus tratos por parte do homem.
O adultério tem maior ocorrência entre os homens, raramente entre as mulheres. Geralmente o adultério do homem é aceito, mas a família se reúne com ele, fazendo críticas sobre sua atitude e aconselhamento, pois este não é um ato bem vindo, a poligamia ou bigamia não é aceita em hipótese alguma entre os índios, a única punição pra tal ato, além dos conselhos dos mais velhos é que ele pode ficar sem a mulher, se ela não aceitar a traição pode largar o marido, no entanto, como existe uma serie de dependência de sobrevivência elas acabam se sujeitando a aceitar o marido, mesmo sendo traídas.



[1]    Caso de briga, ou desavença familiar.
A virgindade e Menstruação
Percebe-se, que a mulher Apinayé sofre muitas restrições, pois, entre os índios Apinayé, não é permitido o defloramento pré-marital[1]. A jovem deve permanecer virgem até o casamento. Caso tal incidente aconteça, o rapaz será obrigado a casar-se imediatamente, e, caso se recuse, terá que pagar uma indenização para a família da moça. Antigamente, esse pagamento era feito através de objetos pessoais do próprio rapaz, hoje, a exigência e muito maior, a família exige o pagamento em cabeças de gado (isso se a moça for virgem, se não, será aceito pagamento simples). Caso o rapaz se recuse a fazer tal pagamento, este ficará sujo na aldeia e poderá ser rejeitado pelas outras moças.
No período da menstruação diz-se que deve ter resguardo, porque neste período a mulher está fraca, perdendo muito sangue e nenhum homem deve copular ou se aproximar destas, pois ficará com o corpo quente.
Neste período a mulher Apinayé não deve comer caças como paca, pois provocaria a queda dos cabelos, e, principalmente o jabuti ou peixe, pois pode perder muito sangue. A este pensamento está associado o fato de que há uma relação muito grande entre o sangue e a água, e estes são animais que vivem na água. Essas são algumas situações tradicionais que na maioria das vezes ainda são respeitadas, mesmo com a incorporação da medicina avançada, as índias na maioria tem isso ate mesmo como superstição.
A mulher Apinayé, segundo as tradições deverá se casar antes da primeira menstruação, porque após esta, ela já não é mais considerada virgem, que acontece por volta de 12 anos, hoje no entendo existem muitas exceções com relação a isso, as mocinhas, algumas já com grau de estudos elevados não querem se submeter ao casamento e ficam solteiras.
A virgindade entre os índios Apinayé ainda é muito bem preservada. Caso a moça não siga as regras de preservação, torna-se rapariga pública até conseguir um marido e isso só acontecerá se tal moça comportar-se muito bem, caso contrário será uma “rapariga pública” para o resto de sua vida.  Tal situação só afeta as mulher os homens não são submetidos a esses títulos.
Nimuendajú (1983), “Existem nas aldeias as chamadas “raparigas públicas” que são uma espécie de prostitutas muito procuradas nas festas pelos solteiros. São geralmente as mães solteiras, viúvas ou separadas. Antigamente havia todo um ritual de iniciação da rapariga pública que escolhe tal condição por vontade própria ou por insinuação dos pais. Esta é preparada na casa da família e deve ter o cabelo cortado rente à nuca, enquanto isso as outras raparigas públicas reúnem-se em outra casa onde preparam-se da mesma forma. À noite juntam-se aos guerreiros (pemb) que vão à casa da moça e levam-na para a praça. No dia seguinte, os tios procuram-na na praça onde ela indica os guerreiros com que tivera contato sexual. Então o cabo kolti dos pemb percorre as casas de tais guerreiros denunciados recolhendo ofertas que são embrulhadas numa esteira e levadas para a casa dos pais da moça.
            Esse tipo de ritual não e mais praticado, mas a discriminação por essas mulheres ainda e visível, porém já não e tão aflorada, a família já tenta proteger e cuidar da mulher que perde o marido, no entanto essa tem que ter um bom comportamento para ser respeitada. E com isso poderá se casar novamente, como há muitos casos de mulheres que separaram e casaram-se por se manter com uma índole de mulher direita.



[1]    Sexo antes do casamento.

O Parto e o resguardo da Mulher Apinayé e o papel do homem
De acordo com a tradição, o parto é feito de cócoras ou ainda sentada sobre as pernas de uma banqueta, e, será auxiliado por uma mulher idosa da família, geralmente a avó ou hoje, a enfermeira branca. Terminado o parto, a criança é lavada em uma infusão de folhas[1] colocada na esteira que será dobrada e pendurada pela parteira em uma forquilha de aroeira na frente da choça. Em seguida, a parteira limpa a parturiente, envolve-a em lençóis e leva-a acompanhada do esposo para um pequeno quarto previamente preparado na casa, que tanto pode ser na sua como de sua mãe, isso acontece quando o parto é feito na aldeia e não no hospital, pois atualmente quase todas as índias recorrem ao hospital de Tocantinópolis para parirem seus filhos. Ao voltarem para a aldeia às crianças recebem o banho de folhas que é preparado pela avó ou a mais velha das mulheres da família.
O resguardo também e cumprido pelo marido seguindo as tradições, no primeiro dia após o parto, o esposo não deve sair do quarto e também devem evitar conversar com a mulher.



[1]    Folha de infusão, usado pelas mulheres para lavar as crianças que nascem na aldeia.

Divisão do Trabalho entre Mulheres e Homens Apinayé
A divisão do trabalho na comunidade Apinayé da Aldeia São José, não se pode dizer que privilegia homens ou mulheres, observa-se que os dois trabalham em proporções mais ou menos iguais.
Essa divisão social do trabalho, esta submetida a duas esferas publicas e domesticas dentro da comunidade, os homens ficam com a parte publica, que destina-se ao provento de natureza externa, na obrigação das roças, onde quase toda família tem a sua na qual a derrubada e queimada é uma tarefa exclusiva do homem, porém o encoivaramento, plantio e colheita tem a participação de ambos e também das crianças que ajudam os pais. É porém, necessário lembrar que a mulher só participa do plantio do feijão, fava e batata pois o plantio do arroz exige um esforço físico do qual a mulher não tem condições de empreender.
 A mulher por outro lado participa da esfera domestica que tem a função de cuidar dos afazeres domésticos e dos cuidados com os filhos, na fabricação de alguns artesanatos, pois outros são produzidos pela mão de obra masculina. A mulher ainda faz farinha de mandioca que serve de alimento para a família.
 Considerações finais

Como na sociedade majoritária a vida das mulheres indígenas Apinayé não é nada fácil e ela também sofre muita discriminação e preconceito, esse tipo de situação vem sendo questionada, a priori passando por alguns abalos a partir das críticas advindas do movimento feminista indígenas, que vem trazendo novos questionamentos, originando novas questões, e introduzindo novos conceitos, dando ênfase no significado do gênero em termos de valores e estímulos, de forma ainda bem peculiar nas discussões desses papeis e as relações de poder, do ponto de vista da hegemonia masculina.
Esse conhecimento advindo das praticas feministas de grupos organizados de mulheres indígenas, vem originando assim alternativas de um modo de vida diferenciado a essas mulheres esquecidas do Brasil.
Infelizmente essa consciência ainda não chegou entre as mulheres Apinayé que ainda sofrem muitas agressões, o desrespeito por sua identidade, seu espaço de autonomia ainda muito restrito aos mecanismos domésticos.
As mulheres Apinayé ainda não deram seu grito de liberdade, ainda falta consciência feminista de seus direitos.  Fora isso, ainda vêm enfrentando os atropelos do contato com a sociedade não indígena, ligadas ao resultado que a bebida vem causando dentro da aldeia e na conjuntura familiar, é quase um genocídio contemporâneo para os povos indígenas, e a mulher é a maior vitima que na maioria, pois e quem recebe a violência causada pelos homens bêbados que acabam maltratando e lesionando suas companheiras, além disso também são vitimas do vicio que o álcool produz. Essa é uma situação gravíssima que a cada dia aumenta dentro da aldeia.
A situação é bem gritante e se faz urgente um trabalho de conscientização sobre o direito dessas mulheres, que ainda é muito invisível, é preciso que seja questionado as ações de proteção às mulheres, aonde a lei não chega ate as mulheres indígenas, pois estão protegidas das obrigações e das convenções majoritárias, mas não dos atropelos causadas por ela.
As mulheres Apinayé precisam ser amparadas de fato na lei, precisam conhecer seus direitos, entender o conceito de gênero, dentro das relações de poder, ter conhecimento e práticas sociais. Precisam ainda, ser reconhecidas como mulheres capazes e produtivas, não só no trabalho domestico, onde desempenho bravamente suas tarefas, mas sim, diante de uma sociedade, que elas possam ter voz ativa, que tenham o direito na tomada de decisão.
São mínimas as mulheres indígenas vistas com esse conhecimento e produtividade, que luta por seus direitos, que tem autonomia, que esta emancipada de fato. Por tanto, já é passada a hora de se mudar essa realidade. Já temos em muitos outros povos exemplos de mulheres que estão a frente de suas aldeias, e que representam relevantes contribuições, no sentido de mostrar que a mulher indígena pode assegurar este espaço de autonomia e dignidade que se prolifera além das concepções culturais, pois na sua maioria ainda estão submetidas a tradicional ideia, de homens dominantes e mulheres subordinadas, uma vez que as posições se alternam a realidades dessas mulheres muda.
Com relação às mulheres indígenas Apinayé essas circunstancias sociais estão extremamente remetidas as questões culturais que predomina a emancipação masculina,  remetendo a mulher a uma submissão hierárquica em sua posição social, entre os Apinayé apesar da mulher ter voz ativa dentro de casa, ela ainda não ocupa funções de poder, ela ainda esta a margem do domínio do homem, mas isso não esta implícito na autoridade, mas esta inserido nas tradições culturais que ainda são muito vivas.
Posso dizer que a mulher Apinayé segue o tradicionalismo cultural no que diz respeito às intervenções de poder, pois não e testemunhado uma mulher Cacique, por exemplo, ou Pajé, não há lembrança de nenhuma mulher comandando as associações ou fazendo parte de chefia nas comissões de lideranças entre os Apinayé da Aldeia São José.
Isso deixa claro que as mulheres de alguma forma estão sendo omissas com os seus direitos e se retraindo a vida familiar com as funções domesticas, submetidas à vigilância masculina e deixando de lado a sua cidadania e autonomia em função da herança hora cultural e predominante dentro da Aldeia São José.

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