Rosimar
Locatelli*[1]
Pedagogia -
UFT
Introdução
*[1] Aluna da Pós-graduação de Gerontologia pela
UFT, graduada do Curso de Pedagogia da Universidade Federal do Tocantins-UFT. Artista
plástica, Indigenista e pesquisadora das questões indígena Apinayé.
Este
trabalho pretende fazer um estudo sobre a visão critica das mulheres Apinayé,
investigar-se-á se essa realidade de luta e de consciência é vivenciada por
elas na realidade dentro da aldeia São José em Tocantinópolis. A priori,
pretende-se compreender o papel da mulher Apinayé nesta sociedade. Diante desta
perspectiva observar-se-á, seu desempenho diante das questões de gênero. Será
que elas reproduzem as lutas feministas a favor de liberdade e autonomia, na
visão critica dos direitos das mulheres indígenas brasileiras?
É necessário
destacar que esse estudo traz informações sobre a percepção das atividades do cotidiano das
mulheres Apinayé, do casamento, da menstruação, da divisão do trabalho, da
participação política, e a percepção que as mulheres têm das ideias de
autonomias feministas, etc. Essas informações foram colidas através de
observações e entrevistas semi-estruturadas, realizadas durante 20 dias de visitas
na aldeia, por
meio de uma pesquisa de campo.
A
proposta inicial deste texto é discutir sobre esta questão de gênero e cultura
a partir de algumas ideias a propósito do assunto, legitimando por alguns
autores como, Héritier (1996), que tem estudado o relacionamento familiar e de
casal, reflete sobre as representações de gênero, de pessoa, de procriação e de
partes do corpo na biologia e na psicologia, identificadas e reconhecidas em
todos os tempos e lugares. Afirma que estas unidades são ajustadas e
recompostas segundo diversas fórmulas lógicas possíveis, mas possíveis também
porque pensadas segundo as culturas.
Aqui,
levar-se-á em consideração o aspecto cultural dominante na sociedade indígena,
sem esquecer seus costumes e tradições, e do significado de liberdade e
autonomia feminina a partir de uma ótica indígena, para isso, contatar-se-á com
os discursos e manifestos atuais das mulheres indígenas, numa concepção
contemporânea do tema.
Mulher indígena memoria e identidade: a luta por um espaço de
direito
O Parto e o resguardo da Mulher Apinayé e o papel do homem
Para
as mulheres indígenas brasileiras, essa luta emana consequentemente da cultura,
não se pode descartar essa concepção cultural que para o povo indígena é o que
move suas ações.
No
entanto é chegada a hora dessas mulheres serem reconhecidas e respeitadas como
tal, a notar dentro das leis onde encontramos o verdadeiro reconhecimento aos
direitos dessas mulheres?
A Lei Maria da Penha (Lei n.º 11.340, de 7 de
agosto de 2006) dispõe, no seu art. 2º:
Toda mulher, independente de classe,
raça, etnia, orientação sexual, renda, cultura, nível educacional, idade e
religião, goza dos direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sendo-lhe
asseguradas as oportunidades e facilidades para viver sem violência, preservar
sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual e social.
É
claro que a lei Maria da Penha que coíbe a violência doméstica e familiar
contra a mulher também acolhe as vítimas indígenas. Obviamente não poderia ser
diferente. O que se percebe é que a lei não leva em consideração as
especificidades étnicas e culturais dos povos indígenas. O contato com o
machismo da sociedade não indígena tem influenciado as ações dos homens
indígenas, isso recai na fragilidade da mulher indígena, que não tem sua
integridade garantida dentro das aldeias. Na maioria ao menos conhecem seus
direitos.
Percebemos mediante esse estudo que a mulher indígena tem sido vista
como uma mulher comum que inserida numa sociedade tem seus direitos
assegurados, e vista de forma global, onde seus direitos estão mascarados no
papel da mulher branca ou mulher negra e nunca mulher indígena, lhes é negada a
possibilidade de as autoridades municipais e estaduais não poderem agir dentro
das aldeias em caso de alguma agressão, ate mesmo lhe e negado o fato de não
conhecerem da lei, não sabem que agressões verbais e os abusos domésticos são
crimes, e por tanto não se encorajam pela denuncia.
Ainda é mínima ao quase invisível a
atenção dada a essas mulheres que vivem invisíveis as leis aos diretos de
existência de forma digna, essa “invisibilidade” é ainda maior. O dossiê sobre
“Mulheres Indígenas”, publicado pela Revista Estudos Feministas[1], aponta para a necessidade da
ampliação de estudos com enfoque de gênero para essa população específica, e a
pouca atenção às especificidades das mulheres indígenas, de outro.
Apesar de tão pouca visibilidade, ao
longo dos anos as mulheres indígenas vem se organizando e pouco a pouco
construindo seu espaço e fortalecendo suas lutas, construindo suas organizações
de direito em busca de uma autonomia.
Segundo SACCH (2003);
As duas primeiras organizações
brasileiras exclusivas de mulheres indígenas surgiram na década de 1980, sendo
consideradas as pioneiras a Associação de Mulheres Indígenas do Alto Rio Negro
(Amarn) e a Associação de Mulheres Indígenas do Distrito de Taracuá, rios
Uaupés e Tiquié (Amitrut). Em 2000, em Assembleia da Coordenação das
Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) foi reivindicada a
criação de um espaço para as demandas das mulheres indígenas. Em 2002, no
decorrer do I Encontro de Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira, foi criado
o Departamento de Mulheres Indígenas (DMI/Coiab), com o objetivo de defender os
seus direitos e interesses nos vários âmbitos de representação, nacional e
internacional. Em 2006, pela primeira vez na história das políticas públicas
pós-Constituição Federal de 1988, se incluiu num Plano Plurianual (PPA) uma
ação específica para as mulheres indígenas: o Programa Identidade Étnica e
Patrimônio Cultural dos Povos Indígenas, sob a responsabilidade da Fundação
Nacional do Índio (Funai). Finalmente, em janeiro de 2007, foi criado, no
âmbito da Funai, um departamento específico de mulheres indígenas.
Como
podemos perceber, as mulheres indígenas estão lutando por sua identidade,
buscando seu espaço, na guerra contra a discriminação e falta de respeito, não
se pode mais conceber uma sociedade que não entenda o verdadeiro papel que cada
mulher ocupa dentro de sociedades distintas como podemos perceber nas palavras da Militante indígena Pataxó Hã-hã-hãe[2]
(em depoimento 2007):
Com o passar do tempo a vida de nós mulheres
indígenas vem mudando muito, pois antigamente nós tínhamos nossos afazeres
limitados a cuidar dos filhos e da manutenção das roças e das casas. Atualmente
nós mulheres entramos na política e temos voz ativa nas decisões da aldeia. Voz
que antes era restrita aos homens. Hoje temos mulheres ocupando cargo de
cacique que antes era cargo limitado aos homens, por terem que viajar muito e
tomar decisões mais serias para a vida do nosso povo. Na minha aldeia Pataxó Hã
Hã Hãe, nós mulheres temos um espaço muito grande na política indígena, já
tivemos mulher candidata a vereadora e temos mulheres ocupando cargo de lideres
até de cacica. Vemos isso como um grande avanço para nossa sociedade. Isso
também é prova que os homens indígenas não são tão machistas quanto se pensa,
pois para nós mulheres conseguirmos esse tipo de cargo precisamos do apoio dos
homens também e eles reconhecem que temos capacidade de assumir os cargos que
conquistamos.
Queremos continuar crescendo nosso espaço
político na aldeia e fora dela, pois somos capazes e isso é importante para
acabar com o preconceito de que mulher indígena só serve pra cuidar dos filhos
e da casa. Todo dia é dia da mulher indígena, pois trabalhamos muito duro pelo
nosso povo, porém é importante termos uma data para comemorar nosso dia e é por
isso que temos o dia 30 de outubro como o nosso dia.
Assim
constitui-se a realidade de algumas mulheres indígenas, aqui retrata uma mulher
pataxó que reconhece a necessidade de luta cada vez maior pela emancipação
feminina de sua aldeia.
O
próximo item, tratar-se-á da experiência entre os Apinayé, que nos coloca
afrente de uma situação hegemônica sobre as questões de gêneros. Para
entendermos como é dada essa visão ora identitária, vamos conhecer a vida das
mulheres Apinayé da aldeia São José[3]. O que propomos, é também o estudo sobre a visão critica das
mulheres Apinayé, vamos investigar se essa realidade também faz parte da vida e
do cotidiano dessas mulheres dentro da aldeia São José em Tocantinópolis.
[1] Esse Dossiê foi organizado pela Antropóloga Bruna Franchetto para a Revista Estudos Feministas, vol.7,
n.1. Rio de Janeiro/Instituto de Filosofia e Ciências Sociais/ Florianópolis/
Centro de Filosofia e Ciências Humans/IFSC, 1999.
[2] Índia
Pataxó - Depoimento disponível no site http://www.webbrasilindigena.org.
[3] Aldeia indígena Apinayé, situada
no município de Tocantinópolis - TO
Mulheres Apinayé: Trajetória e Identidade
Neste texto pretende-se decorrer à análise
do material etnográfico, oriundo da observação sistemática e das entrevistas
realizadas, as observações definidas, tais como: a percepção das atividades do
cotidiano, do casamento, da menstruação, da divisão do trabalho, da
participação política, e a percepção que as mulheres têm das ideias de
autonomia, etc. Essas entrevistas, em sua maioria, foram realizadas durante 20
dias de visitas na aldeia.
Para
conhecer a vida dessas mulheres e necessário uma investigação doravante
empírica, para entender a vida cotidiana atual. Minha pesquisa se restringe a
observação e entrevista com cinco mulheres Apinayé entre essas jovens e idosas
que a priori as designarei com nomes fiquiticios, preservando assim sua
identidade.
Embora as mulheres estejam muito presentes no
cotidiano da aldeia, há lugares onde a sua presença é mais marcante no decorrer
do dia. Geralmente elas vão para o rio, para lavar os pratos do almoço, tomar
banho e dar banho nas crianças. Quando há roupas para lavar, elas levam de
manhã. Essa atividade geralmente não e
feita sozinha, e feita em companhia de parentes próximas, mães e filhas, sogras
e noras, juntamente com as crianças que estão sempre por perto, brincando e
tomando banho. É realizada quase que diariamente.
As atividades entre as mulheres começam a partir
dos 12 anos de idade já se trabalha em roça, já cuida da casa, já lava roupa,
cuida dos irmãos mais novos, e participa de todas as responsabilidades
domesticas junto com as mães.
Ao perguntar
sobre o que é ser uma mulher Apinayé na sociedade atual, obteve-se a seguinte
resposta de joana, nossa anfitriã, que cedeu sua casa e traduziu a maioria das
respostas e perguntas feitas para as outras mulheres:
Ser
uma mulher Apinayé não é muito fácil, tendo em vista que para nós tudo surgem
muito cedo, casamos cedo, a responsabilidade com a casa e a cobrança da comunidade
de que nós devemos ser boas esposas, que devemos cuidar bem da casa e dos
filhos. A vida de nós mulheres Apinayé é voltado para a família. A maioria das
mulheres tem muitos filhos, e seu tempo é preenchido com as coisas de casa.
Apesar disso, me dediquei aos estudos, com muitas dificuldades me formei e hoje
sou professora na escola, primeiro que só tive dois filhos e também tive apoio
do meu marido que também é professor. (Joana[1] -2011)
Como
podemos perceber nas palavras da Indígena Apinayé, doravante com vulgo de
Joana, as famílias se constituem muito
cedo, com isso a responsabilidade das mulheres também, por tanto a dificuldade
de se inserir no mercado de trabalho, nas discussões externas e no estudo
torna-se ainda mais difícil.
Por tanto
essa constituição familiar precoce, ou seja, na adolescência a mulher Apinayé
já tem vida adulta, já começam a participar das atividades produtivas e
reprodutivas, casam-se com idade entre 12 e 16 anos, e já estão produzindo
outras crianças.
Para
entendermos essa realidade vamos conhecer a estrutura familiar Apinayé como
consiste diante das pesquisas de Curt:
“Uma parentela de algum modo organizada, não
existe. Ela se esboça na comunidade de casa que se compõe de diversas famílias,
aparentadas entre sí pela linha feminina. Em média contam-se dez pessoas para
uma casa... não existe nenhuma casa habitada por uma só família, sendo de seis
o número maior de famílias reunidas sob o mesmo teto”. (Nimuendajú, 1983 : 58).
Na leitura
de Curt as parentelas são desorganizadas, de foto sim, porém mesmo com o tempo,
ainda se mantem a linha feminina familiar, onde a mãe, ou mulher é o eixo da
casa e quem distingue-se a parentela familiar, se sabe a existência de parentes
por se tratar da sequência hierárquica matriarcal.
Em
depoimento, Senhora Apinayé[2],
diz que: “Apesar dos seus quase oitenta
anos ainda cuida da casa, ajuda os filhos e netos” - e é quem domina a
hierarquia da casa.
No
entanto, sua autonomia e chefia esta simplesmente remetida às condições
domesticas, e ainda são submetidas a alguns fenômenos, resultado do contato com
a sociedade não indígena, que a cada dia reproduz mais e mais estragos entre as
sociedades indígenas. A violência aqui vivi entre as mulheres Apinayé, se
refere na maioria ao resultado da bebida, o alcoolismo vem causando sérias
consequências ao povo Apinayé, e a mulher é sem duvida a maior vitima. Que além
de sofrer as agressões de seus homens bêbados, ainda são influenciadas pelo
vício, fenômeno esse a cada dia mais crescente dentro da aldeia.
É uma situação muito preocupante, que infelizmente
esta além de uma consciência politica emancipatória, que ainda não chegou entre
as mulheres Apinayé, elas ainda sofrem
muitas agressões, o desrespeito por sua identidade, por seu espaço de
autonomia, ainda é muito restrito aos mecanismos domésticos que muitas vezes e
esquecido pelas violência sofrida pelos maridos quando estão bêbados.
Apesar da
necessidade e consciência de uma aculturação feminista, as mulheres Apinayé,
ainda estão longe dessa realidade. À Exemplo de Joana não temos outras que
conseguirá seguir a vida acadêmica e ter voz ativa dentro da aldeia São José.
E
visível que a mulher Apinayé segue o tradicionalismo cultural, ela ainda não
esta afrente das relações de poder, a liderança e papeis políticos, continuam
sobre o domínio dos homens, não e visto nenhuma mulher Cacique, ou Pajé, por exemplo; nem no comandando das
associações ou das comissões de lideranças entre os Apinayé da Aldeia São José.
O
casamento: a tradição e o lugar da mulher
A mistura
com a sociedade não índia mudou muita coisa junto aos Apinayé, muitos rituais e
crenças foram esquecidos e substituídos pela cultura urbana, como ouvimos
através do depoimento de um idoso Apinayé[1],
“muitos rituais não existem mais entre o
meu povo devido a aproximação do kupen[2], com o peny[3].
O índio tá cada vez mais se misturando com a cultura do
homem branco, perdendo sua identidade e sua cultura, vivendo a vida e os costumes dos brancos”.
Essa é uma
realidade entre os Apinayé, a cultura esta se transformando a cada dia, no
casamento, antigamente, não era permitido o matrimônio entre primos, hoje, essa
tradição já não é respeitada e os primos casam-se entre si. Mesmo, mantendo as
tradições que começa pela escolha onde - O
rapaz escolhe sua noiva livremente, não necessitando mais que seu pai a
escolha, ou que estes tenham dormido juntos desde pequenos, ou ainda, que se
tenha concluído a sua iniciação de guerreiro. Os padrinhos e madrinhas, marcam
a data do casamento e fazem a preparação do mesmo. Cabe ao cacique, fazer o
aconselhamento ao casal, falando de suas responsabilidades e obrigações .(segundo
coletas de dados)
Enquanto o
casal não residir em sua própria casa, o casal vai morar na casa da mulher,
onde o pai é a autoridade máxima da família, até que esta tenha o seu primeiro
filho, tornando-se a partir daí, o marido totalmente responsável pela esposa.
Ao mudarem para sua própria casa, esta pertence ao homem, sendo que no caso de
separação a mulher permanece na casa e o homem retorna à casa dos pais, casando-se
novamente vai morar na casa do sogro.
Na medida
em que, vamos conversando e colendo informações junto ao grupo, encontramos algo curioso sobre o casamento dos
Apinayé é que o homem preguiçoso dificilmente casa, pois a família da mulher e
mesmo esta, não aceita casar-se com tal sujeito. Dada à esta situação a mulher
tem aqui, pode-se perceber certa autonomia na escolha de seus maridos.
Divórcio
e Adultério: Quem trai o Homem ou a Mulher?
A separação
entre os Apinayé, apesar de não ser comum, pode acontecer em caso de
incompatibilidade familiar[1],
adultério, sendo que antigamente esta só acontecia se houvesse adultério por
parte da mulher ou maus tratos por parte do homem.
O adultério
tem maior ocorrência entre os homens, raramente entre as mulheres. Geralmente o
adultério do homem é aceito, mas a família se reúne com ele, fazendo críticas
sobre sua atitude e aconselhamento, pois este não é um ato bem vindo, a
poligamia ou bigamia não é aceita em hipótese alguma entre os índios, a única
punição pra tal ato, além dos conselhos dos mais velhos é que ele pode ficar
sem a mulher, se ela não aceitar a traição pode largar o marido, no entanto,
como existe uma serie de dependência de sobrevivência elas acabam se sujeitando
a aceitar o marido, mesmo sendo traídas.
[1] Caso
de briga, ou desavença familiar.
A
virgindade e Menstruação
Percebe-se,
que a mulher Apinayé sofre muitas restrições, pois, entre os índios Apinayé,
não é permitido o defloramento pré-marital[1].
A jovem deve permanecer virgem até o casamento. Caso tal incidente aconteça, o
rapaz será obrigado a casar-se imediatamente, e, caso se recuse, terá que pagar
uma indenização para a família da moça. Antigamente, esse pagamento era feito
através de objetos pessoais do próprio rapaz, hoje, a exigência e muito maior,
a família exige o pagamento em cabeças de gado (isso se a moça for virgem, se
não, será aceito pagamento simples). Caso o rapaz se recuse a fazer tal
pagamento, este ficará sujo na aldeia e poderá ser rejeitado pelas outras
moças.
No período
da menstruação diz-se que deve ter resguardo, porque neste período a mulher
está fraca, perdendo muito sangue e nenhum homem deve copular ou se aproximar
destas, pois ficará com o corpo quente.
Neste
período a mulher Apinayé não deve comer caças como paca, pois provocaria a
queda dos cabelos, e, principalmente o jabuti ou peixe, pois pode perder muito
sangue. A este pensamento está associado o fato de que há uma relação muito
grande entre o sangue e a água, e estes são animais que vivem na água. Essas
são algumas situações tradicionais que na maioria das vezes ainda são
respeitadas, mesmo com a incorporação da medicina avançada, as índias na
maioria tem isso ate mesmo como superstição.
A mulher
Apinayé, segundo as tradições deverá se casar antes da primeira menstruação,
porque após esta, ela já não é mais considerada virgem, que acontece por volta
de 12 anos, hoje no entendo existem muitas exceções com relação a isso, as
mocinhas, algumas já com grau de estudos elevados não querem se submeter ao
casamento e ficam solteiras.
A virgindade entre os índios Apinayé ainda é
muito bem preservada. Caso a moça não siga as regras de preservação, torna-se
rapariga pública até conseguir um marido e isso só acontecerá se tal moça
comportar-se muito bem, caso contrário será uma “rapariga pública” para o resto
de sua vida. Tal situação só afeta as
mulher os homens não são submetidos a esses títulos.
Nimuendajú (1983), “Existem nas aldeias as
chamadas “raparigas públicas” que são uma espécie de prostitutas muito
procuradas nas festas pelos solteiros. São geralmente as mães solteiras, viúvas
ou separadas. Antigamente havia todo um ritual de iniciação da rapariga pública
que escolhe tal condição por vontade própria ou por insinuação dos pais. Esta é
preparada na casa da família e deve ter o cabelo cortado rente à nuca, enquanto
isso as outras raparigas públicas reúnem-se em outra casa onde preparam-se da
mesma forma. À noite juntam-se aos guerreiros (pemb) que vão à casa da moça e
levam-na para a praça. No dia seguinte, os tios procuram-na na praça onde ela
indica os guerreiros com que tivera contato sexual. Então o cabo kolti dos pemb
percorre as casas de tais guerreiros denunciados recolhendo ofertas que são
embrulhadas numa esteira e levadas para a casa dos pais da moça.
Esse
tipo de ritual não e mais praticado, mas a discriminação por essas mulheres
ainda e visível, porém já não e tão aflorada, a família já tenta proteger e
cuidar da mulher que perde o marido, no entanto essa tem que ter um bom
comportamento para ser respeitada. E com isso poderá se casar novamente, como
há muitos casos de mulheres que separaram e casaram-se por se manter com uma
índole de mulher direita.
[1] Sexo
antes do casamento.
De acordo
com a tradição, o parto é feito de cócoras ou ainda sentada sobre as pernas de
uma banqueta, e, será auxiliado por uma mulher idosa da família, geralmente a
avó ou hoje, a enfermeira branca. Terminado o parto, a criança é lavada em uma
infusão de folhas[1]
colocada na esteira que será dobrada e pendurada pela parteira em uma forquilha
de aroeira na frente da choça. Em seguida, a parteira limpa a parturiente,
envolve-a em lençóis e leva-a acompanhada do esposo para um pequeno quarto
previamente preparado na casa, que tanto pode ser na sua como de sua mãe, isso
acontece quando o parto é feito na aldeia e não no hospital, pois atualmente
quase todas as índias recorrem ao hospital de Tocantinópolis para parirem seus
filhos. Ao voltarem para a aldeia às crianças recebem o banho de folhas que é
preparado pela avó ou a mais velha das mulheres da família.
O resguardo
também e cumprido pelo marido seguindo as tradições, no primeiro dia após o
parto, o esposo não deve sair do quarto e também devem evitar conversar com a
mulher.
[1] Folha
de infusão, usado pelas mulheres para lavar as crianças que nascem na aldeia.
Divisão
do Trabalho entre Mulheres e Homens Apinayé
A divisão
do trabalho na comunidade Apinayé da Aldeia São José, não se pode dizer que
privilegia homens ou mulheres, observa-se que os dois trabalham em proporções
mais ou menos iguais.
Essa
divisão social do trabalho, esta submetida a duas esferas publicas e domesticas
dentro da comunidade, os homens ficam com a parte publica, que destina-se ao
provento de natureza externa, na obrigação das roças, onde quase toda família
tem a sua na qual a derrubada e queimada é uma tarefa exclusiva do homem, porém
o encoivaramento, plantio e colheita tem a participação de ambos e também das
crianças que ajudam os pais. É porém, necessário lembrar que a mulher só
participa do plantio do feijão, fava e batata pois o plantio do arroz exige um
esforço físico do qual a mulher não tem condições de empreender.
A mulher por outro lado participa da esfera
domestica que tem a função de cuidar dos afazeres domésticos e dos cuidados com
os filhos, na fabricação de alguns artesanatos, pois outros são produzidos pela
mão de obra masculina. A mulher ainda faz farinha de mandioca que serve de
alimento para a família.
Considerações finais
Como na sociedade majoritária a vida das mulheres
indígenas Apinayé não é nada fácil e ela também sofre muita discriminação e
preconceito, esse tipo de situação vem sendo questionada, a priori passando por
alguns abalos a partir das críticas advindas do movimento feminista indígenas,
que vem trazendo novos questionamentos, originando novas questões, e
introduzindo novos conceitos, dando ênfase no significado do gênero em termos
de valores e estímulos, de forma ainda bem peculiar nas discussões desses
papeis e as relações de poder, do ponto de vista da hegemonia masculina.
Esse conhecimento advindo das praticas feministas
de grupos organizados de mulheres indígenas, vem originando assim alternativas
de um modo de vida diferenciado a essas mulheres esquecidas do Brasil.
Infelizmente essa consciência ainda não chegou
entre as mulheres Apinayé que ainda sofrem muitas agressões, o desrespeito por
sua identidade, seu espaço de autonomia ainda muito restrito aos mecanismos
domésticos.
As mulheres Apinayé ainda não deram seu grito de
liberdade, ainda falta consciência feminista de seus direitos. Fora isso, ainda vêm enfrentando os atropelos
do contato com a sociedade não indígena, ligadas ao resultado que a bebida vem
causando dentro da aldeia e na conjuntura familiar, é quase um genocídio
contemporâneo para os povos indígenas, e a mulher é a maior vitima que na
maioria, pois e quem recebe a violência causada pelos homens bêbados que acabam
maltratando e lesionando suas companheiras, além disso também são vitimas do
vicio que o álcool produz. Essa é uma situação gravíssima que a cada dia aumenta
dentro da aldeia.
A situação é bem gritante e se faz urgente um
trabalho de conscientização sobre o direito dessas mulheres, que ainda é muito
invisível, é preciso que seja questionado as ações de proteção às mulheres,
aonde a lei não chega ate as mulheres indígenas, pois estão protegidas das
obrigações e das convenções majoritárias, mas não dos atropelos causadas por
ela.
As mulheres Apinayé precisam ser amparadas de
fato na lei, precisam conhecer seus direitos, entender o conceito de gênero, dentro
das relações de poder, ter conhecimento e práticas sociais. Precisam ainda, ser
reconhecidas como mulheres capazes e produtivas, não só no trabalho domestico,
onde desempenho bravamente suas tarefas, mas sim, diante de uma sociedade, que elas
possam ter voz ativa, que tenham o direito na tomada de decisão.
São mínimas as mulheres indígenas vistas com esse
conhecimento e produtividade, que luta por seus direitos, que tem autonomia,
que esta emancipada de fato. Por tanto, já é passada a hora de se mudar essa
realidade. Já temos em muitos outros povos exemplos de mulheres que estão a
frente de suas aldeias, e que representam relevantes
contribuições, no sentido de mostrar que a mulher indígena pode assegurar este
espaço de autonomia e dignidade que se prolifera além das concepções culturais,
pois na sua maioria ainda estão submetidas a tradicional ideia, de homens
dominantes e mulheres subordinadas, uma vez que as posições se alternam a
realidades dessas mulheres muda.
Com relação às mulheres indígenas
Apinayé essas circunstancias sociais estão extremamente remetidas as questões
culturais que predomina a emancipação masculina, remetendo a mulher a uma submissão
hierárquica em sua posição social, entre os Apinayé apesar da mulher ter voz
ativa dentro de casa, ela ainda não ocupa funções de poder, ela ainda esta a
margem do domínio do homem, mas isso não esta implícito na autoridade, mas esta
inserido nas tradições culturais que ainda são muito vivas.
Posso dizer que a mulher Apinayé
segue o tradicionalismo cultural no que diz respeito às intervenções de poder,
pois não e testemunhado uma mulher Cacique, por exemplo, ou Pajé, não há
lembrança de nenhuma mulher comandando as associações ou fazendo parte de
chefia nas comissões de lideranças entre os Apinayé da Aldeia São José.
Isso deixa claro que as mulheres de
alguma forma estão sendo omissas com os seus direitos e se retraindo a vida
familiar com as funções domesticas, submetidas à vigilância masculina e
deixando de lado a sua cidadania e autonomia em função da herança hora cultural
e predominante dentro da Aldeia São José.
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